Associação de Amizade Turco~Portuguesa
por Marcos Vidal / April'98


A verdade é que é de supor que em todas partes cozem favas e que este patético fenómeno que de jeito tão brilhante o Jurjo Souto baptizou com ocasião de um recente derbi como o cainismo futebolístico galego, tem correspondência em muitas partes do mundo. Mas não deixa por isso de ser realmente lamentável per se e pelas consequências que traz.
Ponhamos as cartas sobre a mesa. Eu sou corunhês, corunhesista e desportivista "a maço" como dizimos no bairro. Isso supõe que mais vezes das que gostaria me deixo levar pelo forofismo e solto uma boa quantidade de impropérios contra o nosso benquerido vizinho futeboleiro do sul. Há uma série de coisas que me parecem mal do Celta, ou mais precissamente da sua afeição, da mesma maneira que há coisas que se criticam insistentemente em Vigo sobre o Desportivo que nalguns casos têm uma boa razão de ser. E falo da bipolaridade Corunha Vs Vigo (mais bem Corunha Vs Vigo+Compostela, porque realmente Santiago está mais ao sul do que aparez no mapa, dito seja sem acritude e com esse emoticono que reza ;)
Sempre tenho pensado, neste sentido, que mesmo quando uma crítica se vê dominada pela descerebrada rivalidade própria dos localismos, contém algum motivo digno de análise, e que é melhor discutir as divergências acaloradamente que calá-las e que um dia reventem de mala forma. Ou seja, que tanto os desportivistas deveríamos prestar mais atenção às coisas que se nos dim desde Vigo como viceversa. Uma rivalidade bem entendida, tomada com humor, mesmo sabendo-se rir dos defeitos da própria esquadra, vai em benefício das duas cidades, das duas afeições e das duas entidades.
O problema vem quando a gente se desmadra. Quando se começa a fazer o imbécil e se põe em perigo a integridade moral e/ou física das pessoas. E isso acontez tanto em Vigo como em Corunha, com mais violência em Vigo que em A Corunha até onde chega a minha experiência pessoal, que aínda que seguro que não é representativa, é a minha e assim a emito.
Como me têm confessado em muitas ocassões os amigos vigueses com os que trabalho durante o ano num escritório de economistas em A Corunha, a raiva que se lhe tem ao Real Clube Desportivo em terras do sul chega a cotas realmente doentes, que só acham correspondência em A Corunha com a actitude intransigente dos Riazor Blues respeito de qualquer signo de unidade, mesmo no caso da demanda da selecção galega. Os Blues na sua actitude de desejar o descenso do Celta, ponho por caso, acham o rejeitamento da vasta maioria da sociedade corunhesa, que graças a Deus aínda tem sentidinho. O qual, por desgraça, não posso dizer de muita gente que contra a minha vontade tive de conhecer em Vigo e em Compostela com motivo do futebol.
Por exemplo, nunca me hei de esquecer de como os siareiros do Compos nos trataram a primeira vez que fomos (junto com outros Synápticos) a São Lázaro depois do seu ascenso. E não só pelos insultos, por nos cuspirem e por encirrar os maderos contra nós. Senão porque enquanto aturávamos aquilo, não podia deixar de sentir vergonha alheia de ver gente medradinha que já devia de ter filhos ou mesmo netos portando-se como verdadeiros cabestros, e de me acordar de como eu e os meus amigos celebráramos com paixão galeguista o ascenso do Compostela e como mesmo se sentira mágoa sincera quando o Celta perdeu a Copa diante do Zaragoza.
Assim pois é que desde aqui faço uma chamada à unidade do futebol galego, uma chamada que levo fazendo desde há muito tempo, quando o Celta, como é que também passa agora, era muita mais equipa que o Desportivo; uma chamada que mantive quando a esquadra corunhesa viveu os seus maiores momentos de glória; uma chamada desoída insistentemente e que não por isso vou deixar de emitir.
E mando desde aqui um abraço aos componentes da única penha celtista que tiveram a coragem e galeguidade de vir conosco a Madrid quando ganhamos a Copa. Eles e elas desfrutaram aquele dia como uns mais de nós.
 
Vocês sabem por que?
 
Porque o eram.



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