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Domingos Ferreiro contou-me a história da sua tia Elsa. A tia Elsa passou a sua vida inteira com um medo aterrador por causa de algo que lhe acontecera (ou nom, nom o sabemos certo) sendo ela pequeninha. Quando ela fazia seis anos, tinha dous curmáns, Manolo e Pancho, aos que queria muito; eles de cote iam vê-la porque a casa dos da tia Elsa estava a meio caminho entre a vila onde se feirava e a aldeia da montanha onde os curmáns viviam. Os pais da tia Elsa regentavam umha taverna e Manolo e Pancho, muitas vezes quedavam a cear e um anaco mais, aos contos. Acostumavam a marchar entre lusco e fusco. A tia Elsa queria-lhes aos curmáns com loucura, para ela eram como os irmáns maiores que nunca tivo. Tal era a sua devoçom que numha ocasiom, por aquel tempo, ela botou-se ao caminho detrás deles sem que a sua nai se decatasse. Eles, como sempre, iam a cavalo, e como Elsa ao ser nena andava amodinho e via que nom era quem de os alcançar, tivo um momento de dúvida por alonjar-se da casa. Pero aconteceu que veu um trono e a luz do relâmpado alumiou a aldeia dos seus curmáns alá em riba, no monte. Esta imagem deu-lhe a ela a falsa segureza de que sem muito esforço chegaria à casa deles. Mas fixo-se noite pecha e ela, no meio do monte, já perdida por completo, saiu de entre umha parte de mato alto, para se atopar num prado aparentemente roçado, limpo de tojos e silvas, de base inexplicável e perfeitamente circular, coa erva mui baixa, onde circulavam paseninho umha dúzia de grandes mamíferos que anos depois ela identificaria num documental da TV como mamuts. No meio do círculo que o prado fazia, havia umha poça de água serena, igualmente circular; e à beira da poça havia umha série, todo na volta, de monolíticas figuras. Eram gigantescas esculturas de animais desconhecidos, talhadas de jeito impreciso, primário, tosco, em pedras imensas. A tia Elsa, poucos meses antes do seu passamento, ainda recordava nìtidamente o cheiro penetrante do alento dos mamuts sobre a sua cara, e o caminhar pausado daquelas grandes bestas, e o infinito medo que aquel inverosímil lugar e aquelas inexplicáveis esculturas lhe produziram. Se foi um sonho, Elsa nunca recordou como foi o despertar del; e se foi certo, tampouco lembrou o momento em que os da sua casa a atoparam no monte. A nai de Elsa nunca quixo falar sobre o assunto, e a tia Elsa, no seu mesmo leito de morte, seguia sem saber o que devia crer certo e o quê imaginado. "Nom me importa morrer; mas nom quero volver ali" dizia-lhe a um Domingos que assentia e calava, sobrecolhido.
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