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--Confirma que
deseja enviar "merdamerdamerda.doc" à lixeira? Desde que
começou a sua doença, Marcel Lorente escrevia compulsivamente como se
lhe tivesse ganhado aversão ao mundo, como se o torrente de caracteres o
projectasse sob pressão contra a própria cara estúpida, sorrinte da existência.
"Um escritor é um caprichoso e um preguiçoso, e quem te diga o contrário,
mente". Não há ofício, nem dedicação. Um escritor não trabalha de nove a
duas e de quatro a oito, porque escrever é sangrar um pouquinho, o justo, e
isso não se faz deitando parvoíces e misérias numa folha em branco para fazer
do talento uma rotina, preencher os espaços, cumprir regularmente como quem
paga os impostos. O talento reside na paixão inicial, ardente e caducível, na
raiva dos dias desperdiçados no álcool e nos braços da mulher errada, nas horas
intermináveis destilando tão só tão só uma frasinha de apenas meia dúzia da
palavras que oh milagre de milagres não mereça cuspir-se sem remorso ao vazio
do esquecimento. Malditos, malditos todos escrevedores profissionais, correctos,
mediocres, funcionários públicos das letras, fotocopiadores de palavras,
desaparecede duma puta vez e deixade no mundo o sítio que faz falta, como eu
fago sítio queimando diariamente um monte de textos que espantem com o seu fume
as víboras das musas e as suas vontades parasitárias. --Ontem
sonhei-me ante uma bifurcação de caminhos, à esquerda o caminho abria-se passo
sem dificuldade atravês duma paragem desértica e inabitada; pela direita
afundia-se num bosque agreste e hostil em cuja entrada me aguardavam os três
cães que tenho tido. Fum para a direita... --Por que? --Por serem eles
mais sábios. Antes, por cães e agora, por mortos. --Convidas-me a
outra? --Que és tu,
mais outra musa? Ou tenho cara de ingênuo? --Imbécil! Se
não escreves, não será porque não tens nada que contar? Do jornal
telefonaram muitas vezes mas Marcel não respostava, na altura ele entretinha-se
começando a baralhar as possibilidades criativas do suicído. Levava muitas
semanas sem entregar a sua coluna e estavam a ponto de o despedir definitivamente.
Ao redactor chefe só o continha o passado sucesso dos seus livros e artigos, os
numerosos leitores apaixonados com o seu estilo, que, ainda sendo certos,
vinham minguando nos últimos anos pela irregularidade e volubilidade da sua
obra. Mas Marcel
estava encerrado em casa e só saía de noite por bares que nunca tinha
frequentado, para que não o conhecessem. Unicamente escutava Los Chunguitos, os
primeiros discos de The Ramones, e Shakira (só em espanhol), uma e outra vez, e
fumava marijuana até perder o conhecimento, e quase não comia e o que comia
muitas vezes vomitava-o porque era de estómago sensível. Negou-se a ver a sua
ex-mulher e expressamente renegou dos seus filhos de seis e quatro anos diante
deles, o qual seguramente lhes costaria na adolescência muitos euros em
psicólogos e conselheiros emocionais. O panorama do ex
enfant terrible do romance urbano mudou umha terça feira à manhãzinha ao
telefoná-lo o seu talento: --Estás botando
a perder tudo quanto te tenho dado. --Não te devo
nada. És da minha propriedade e posso fazer o que quiser contigo. --Isso há-se de
ver. Enviarei alguém que te fazerá entrar em razão. --Isso há-se de
ver. Duas décadas
atrás, um verão em casa de seus tios numa anódina vila costeira, de puro
aborrecido, o Marcel com quinze anos tinha lido uma série de sete livros para
raparigas imaturas, intitulados As fabulosas aventuras de Dana Witt.
Protagonizados por uma mocinha (Dana Witt) que fugia repetidamente do internado
feminino (para viver fabulosas aventuras), aquelas leituras da sua prima
pequena desprendiam tanto racismo, sexismo e nostálgia da época colonial
británica que mesmo lograram o inaudito --ferir a sensibilidade do futuro
escritor-- quem apenas rematou a saga por uma questão de malsã curiosidade,
orgulho e por suposto, excesso de tempo de lazer. Lembrou-o quando
abriu a porta do seu apartamento para achar Dana Witt. Quarentona e grossa, mas
contudo Dana Witt. --No derradeiro
livro renunciavas a ires à universidade para casares com aquele cretino de
Joshua Nayton. --convidou-a a passar ao salão sem ainda sair da sua
incredulidade.-- Renunciavas alegre e desprendidamente às tuas aventuras, à tua
própria vida, para te fazeres dona de casa. Devo confessar que é uma das coisas
mais obscenas que tenho conhecido. Literariamente falando, quer dizer. --Não estou cá
para falar da minha vida, senão da tua.-- Sentou amaneirada, com a espalda
tesa. --O que há que
falar? Pousou as mãos
sobre a saia, alisou-a lentamente sobre o regaço e abanou suavemente a cabeça: --Foi-me
encomendado fazer que voltes a escrever. --Escrever com
que motivo? Escrever sobre ti? Faria-te lesbiana, se de mim dependesse. Ou
assassina a soldo; daquele internado nada melhor podia sair. --Já veremos. Dana tinha
cambiado, era tranquila em vez de rebelde, persistente em vez de impulsiva.
Durante dias dedicou-se a limpar e arranjar a casa para, por primeira vez em
meses, parecer habitável; assediou a cabeça de Marcel com obrigações que ele
rejeitava e encheu a sua morada com flores e cópias de contratos de edição que
ele aborrecia. Se a resistência do anfitrião servia para algo não era
precisamente para fazer que a não-convidada desistisse do seu empenho, e o que
mais o anojava a ele era a sua incapacidade para cortar o assunto de primeiras,
botando-a da casa. Não. Tratava-se Dana Witt, não poderia fazer algo assim. Marcel
surpreendeu a Dana saindo da ducha. Sobre o omóplato esquerdo duas serpes
enfrontadas em postura simétrica conformavam um coração. Ele pediu-lhe que se
detivesse: --És a última
pessoa do mundo que imaginaria com uma tatuagem. --Com o índice traçou na pele
espida dela as letras tatuadas dentro do desenho.-- Que significa? --"Este
instante". --Latim. Sempre
quis falar outras línguas... Vivas ou mortas. Dizem que mesmo uma palavra
exacta não é o mesmo em dois idiomas distintos. Como duas gotas de água:
Semelhantes, mas irrepetíveis. --Como um mesmo
sol com distintas cores, diria eu. --Que poético. --Havia
algo de sarcasmo na voz de Marcel. --Comporias
versos para mim?-- Dana deixou cair a toalha ao chão. --Para que...?
Na faculdade fizemos um estudo --aproximou-a para si-- e calculámos que cada
minuto se escreviam no mundo oitocentos versos... Imaginas que excesso? ...
Todas essas palavras vácuas, redundantes... Empregadas para cantar, contar,
denunciar o mil vezes já cantado, contado, denunciado. --Toda pessoa
tem direito a expressar o que sente-- proclamou ela, mais sensual que nunca,
como lambendo as palavras. --E a obriga de
calar se não aportar nada.-- Marcel beijou-a na boca. Deitaram-se na
cama e fizeram o amor. As embestidas de Marcel faziam tremer aquel coraçom e as
suas serpes, aquel instante precioso; ele, guardião de um secreto numa língua
desconhecida, apaixonado com a sua própria fortuna, apaixonado com aquela
mulher excepcional e embriagadora. --Ouviste o que
foi de Marcel Lorente? --Ouvi,
acharam-no morto no seu andar. --Mas sabes
como? --Não. --Estava espido
e com um livro da saga de Dana Witt na mão. --A sério?? Que
pena de homem... Escrevia melhor que qualquer um de nós... Mas estava
trastornado. --Pergunto-me
que se passou pela sua cabeça...
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