Amor que nunca fostes
, por nom amormais que por nom ter sido,
acouga e senta que che vou contar
que é que vou fazer de seguido.
Vou-me desprender insensível
de todos quantos abalórios
de ti se me prenderom,
de todo quanto, por acessório,
me sobra e nom quero.
E vou cruzar a baía, eu soinho, a nado
baixo a única luz da lua crescente
sobre esta mansa, suave corrente
e quando alcance a cala do velho faro,
hás ver,
vai-me invadir a serenidade do mesmo firmamento
e o seu mesmo silêncio sem sentimento
e enquanto ganho de novo o próprio pulso
deitado sobre a areia húmida e fria
axexado por, luzes de outras vidas,
os olhos dos gatos que naquelas lajes moram,
hei pronunciar, quase sem querê-lo,
palavras longo tempo perdidas,
em línguas mortas, matadas de nom faladas,
mortas de mal faladas
mortas, tal que eu,
de mal amadas.
